Junho é um mês cheio de celebrações. Não só se celebra Portugal, Camões e as Comunidades Portuguesas, a dia 10, mas também os Santos Populares e o início do verão e da época balnear. Porém, ao longo deste mês, todos os anos, é celebrado, a par com estes, o orgulho LGBTQIA+.

Muitos de vós poderão agora perguntar “porquê o mês de junho?”. Deixai-me, então, fazer uma breve contextualização, só para o caso de pensarem que isto são “modernices dos tempos”. A história remonta a 28 de junho de 1969, Nova Iorque, a um bar chamado Stonewall Inn, maioritariamente frequentado por pessoas gays, lésbicas e transexuais, que era um refúgio à gigantesca intolerância que se vivia na época. Nesse dia, durante uma rusga realizada por um grupo de polícias à paisana, várias pessoas foram detidas, tendo havido alguma resistência e relatos de episódios de violência. Exatamente um ano depois, realizou-se a primeira marcha do orgulho LGBT nos Estados Unidos da América, tendo sido uma inspiração para tantas outras nações.

No entanto, será que mais de 50 anos foram suficientes para alcançar uma situação digna e de justiça para as pessoas queer (termo utilizado por pessoas que consideram outros termos demasiado restritivos e cuja sexualidade e/ou identidade de género é fluída e está em constante evolução, sendo visto como uma designação mais expansiva)?

Em 2003, por exemplo, a homossexualidade deixou de ser proibida em 9 estados norte-americanos, que à data eram os únicos no país que mantinham esta medida em vigor. Já em Portugal, duas pessoas do mesmo sexo só conseguiram ver a sua união enquanto legal aos olhos do Estado português a partir de 2010 e, posteriormente, aqueles que desejavam alargar a sua família, recorrendo à adoção, só o puderam fazer desde 2016 a diante.

Por outro lado, há países cuja realidade ainda não progrediu como nos casos supramencionados. Tenhamos em conta que há países nos quais ainda existem algumas restrições para que uma pessoa possa aceder ao processo de mudança de sexo; ou que em várias dezenas de países, a homossexualidade ainda é considerada um crime.

Infelizmente, ainda assistimos, com frequência, a crimes de ódio e a atos de discriminação e preconceito. O facto de uma pessoa não se enquadrar na matriz heteronormativa (termo utilizado para descrever um conjunto de regras e situações que marginalizam e discriminam outras orientações sexuais que não sejam a heterossexual; poderão ler mais sobre a forma como esta matriz cis-heterossexual tem interferido com a “autodeterminação individual” nos textos de Judith Butler), que é ainda predominante numa sociedade essencialmente conservadora (para além de machista e patriarcal) como a nossa, não dá o direito, seja a quem for, de a agredir física ou verbalmente. E para além disto, há ainda situações de pessoas que dizem “não ser contra”, mas que tecem comentários onde empregam uma linguagem e expressões que chegam a roçar o ofensivo e a falta de respeito.

A verdade é que nem precisamos de recuar tanto no tempo. Vejamos como a própria literatura infantil, que está a tentar tornar-se mais inclusiva, está a ser atacada por certos movimentos extremistas e fundamentalistas, que acusam autores como Mariana Jones ou Lúcia Vicente, por exemplo, de estarem a doutrinar crianças através dos seus livros. A minha posição relativa a esta situação não podia ser mais óbvia; a literatura tem o poder de nos mostrar o mundo nas suas mais diversas possibilidades e fazer-nos refletir sobre as mesmas, cabe a cada um pensar como trata essa informação. Sendo crianças, jovens ou adultos, o que importa aqui é perceber que o mundo não é uma caixa fechada e rotulada, onde todos somos iguais e nos comportamos da mesma forma, e, principalmente, aprender a respeitar todas essas diferenças.

No fundo, ainda que já muito se tenha caminhado, ainda a procissão vai no adro. Não pensem que é por haver um mês dedicado ao orgulho LGBT ou o Dia Internacional Contra a Homofobia, Bifobia e Transfobia que significa que já está tudo conforme desejado. Estas ocasiões servem, por suposto, para recordar que ainda há muito trabalho a fazer para que se cumpra aquilo que vem decretado no primeiro artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos”.

Por fim, resta-me dizer que, a meu ver, mais que um longo caminho a percorrer no que ao alcance de direitos igualitários e justos diz respeito, é de extrema necessidade respeitar as pessoas por aquilo que elas são, na sua essência e natureza; e isso passa por educar e sensibilizar, tanto pequenos como graúdos. Não temos de ser todos ativistas, não temos de participar em marchas e arraiais, temos sim de respeitar o próximo tal como gostaríamos que nos respeitassem a nós.

Amem e deixem amar.

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