Nos passados três sábados foi transmitido na RTP1 o mítico Festival da Canção, programa que visa eleger o representante de Portugal para o Festival Eurovisão da Canção.
Poderão já imaginar a euforia do Pedro de 17 anos quando foi anunciado que a grande final deste programa seria transmitida a partir de Elvas. As razões pelas quais gosto imenso deste formato são as mais variadas; não se trata apenas do programa de entretenimento com maior longevidade na televisão portuguesa, como também se guia pela inclusão, diversidade e igualdade.
O Festival da Canção tem marcado a história do panorama musical português há décadas, assim como tem dado a conhecer Portugal além-fronteiras, e este ano não foi exceção. No passado sábado, dia 9, o júri nacional e o público elegeram a intérprete Iolanda Costa como a vencedora da edição de 2024.
Não me considero um perito em televisão, porém estando a terminar a licenciatura em Ciências da Comunicação, creio que poderei ter algumas ferramentas (e uma certa legitimidade) para abordar determinadas questões. Falando em questões práticas, trata-se de um programa que é emitido há já 60 anos e que, ainda assim, não para de surpreender a cada ano. Há que glorificar toda a equipa técnica, desde realizadores, guionistas, cenógrafos, figurinistas, sonoplastas, etc. O meu sincero aplauso ao quarteto fixo de apresentadores que, ao longo dos anos, tem desempenhado um trabalho exímio, tendo conseguido equilibrar o entretenimento devido com a seriedade que o formato exige.
No entanto, para além de tudo isto, o Festival da Canção não se faz sem artistas. São eles que carregam a responsabilidade de dar a conhecer aquilo que temos de melhor naquele que é um dos maiores concursos do mundo inteiro. Este ano, essa responsabilidade caberá a Iolanda que, no passado sábado, se consagrou vencedora desta edição do Festival e que “gritará” Portugal aos quatro cantos do mundo.
De facto, sempre considerei “Grito” uma das potenciais canções vencedoras, quer seja pela letra, pelo incrível alcance vocal da intérprete e, a posteriori, por todo um espetacular trabalho de palco, desde adereços a coreografia.
“Grito” arrecadou, então, 22 pontos, enquanto resultado da ponderação entre a classificação do júri nacional e do televoto. No entanto, outras canções também se destacaram nesta edição, tendo algumas ficado aquém no final e outras que nem a esta fase chegaram, injustamente; contudo, não é fácil coadunar duas grandes opiniões distintas.
João Borsch foi um dos casos que mais revoltou os fãs do Festival, já que obteve 12 pontos por parte do público, mas não se consagrou vencedor por ter arrecado somente 6 pontos por parte do júri nacional, após a conversão de pontos. Havia um grande investimento de atuação de palco, já que todo o cenário confluía numa espécie de distopia, o que tornava a atuação muito apelativa visualmente.
Em terceiro lugar classificou-se Leo Middea, cuja música e performance louvo, mas, mais do que isso, aplaudo a forma como lidou com todos os comentários vis e hediondos feitos a seu respeito. Não consigo ficar indiferente à quantidade de ódio gratuito que existe nas redes sociais. Para quem não sabe, o Festival Eurovisão da Canção foi criado no período pós II Guerra, justamente com o propósito de promover a união entre os países europeus e de os erguer após este trágico período; mais do que um concurso de música, é um festival que visa, concomitantemente, promover a inclusão, a igualdade e a tolerância. É, por isso, inaceitável que sejam feitos comentários acerca de um artista que tem o mesmo direito em estar naquele palco como todos os outros e, tal como eles, que está a lutar pela vida num meio que é tão precário e pouco valorizado.
Há outros artistas que gostaria de saudar e cujas performances gostaria de glorificar, mas fá-lo-ei nas minhas redes sociais. Ainda assim, caso tenham curiosidade em explorar um pouco do seu trabalho, aqui ficam alguns nomes: Huca, Perpétua, João Couto, Noble, Silk Nobre (assim ficam já a conhecer o meu top 4 de cada semifinal).
Por fim, gostaria somente de deixar uma nota final. Ponderei seriamente em escrever um artigo sobre as eleições, porém, ainda que me considere uma pessoa ponderada, considerei que não o deveria fazer, uma vez que poderia ser demasiado “tendencioso”. Ainda que este se trate de um trabalho freelancer, a verdade é que não estou por conta própria, e pelo profissionalismo que me caracteriza e por respeito à entidade para a qual escrevo, optei por falar de um programa que fez questão de celebrar o 25 de abril na sua emissão, ao invés de expressar o meu descontentamento e vergonha para com os meus conterrâneos.
Infelizmente, não creio que o programa tenha sido líder de audiências em Elvas, já que, aparentemente, não se lembraram deste mítico dia para a nossa democracia quando foram às urnas.

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